BLG_CLV, 20.10.2021 > ÁUDIO IMERSIVO EM PODCASTS: O RECURSO BINAURAL NA CONSTRUÇÃO DE NARRATIVAS FICCIONAIS


O podcast tornou-se uma prática de produção profissional e comercial, mas começou como produções caseiras e independentes, popularizando-se ao longo dos anos e conquistando cada vez mais ouvintes. Os gêneros são diversos, é possível encontrar os esportivos, humorísticos, jornalísticos, entre outros. Mas foi nesse formato de produção sonora que o audiodrama encontrou espaço para retomar desde que perdeu audiência na programação de emissoras radiofônicas com a popularização da televisão.


Esse tipo de produção ainda é mais frequente nos Estados Unidos e marca, inclusive, a retomada de uma estética acústica que se assemelha a dos anos dourados do rádio.

De acordo com dados da pesquisa The Infinite Dial 2018, o podcast continua sua trajetória em crescimento acelerado. Dos entrevistados, 64% afirmaram que têm familiaridade com o termo podcast e 44% que já tinham ouvido algum episódio. Com o aumento da produção e distribuição deste formato, novas estratégias têm surgido com a finalidade de fidelizar e conquistar novos ouvintes. Uma dessas ferramentas é o áudio binaural, que constrói a sensação de imersão, como se as ações acontecessem próximas da audiência.


Ainda são poucos os podcasts que utilizam esse recurso e, por isso, optamos por analisar a série americana de histórias de horror Darkest Night, para compreender como o binaural é utilizado na construção de narrativas de audiodrama, que têm caráter imersivo.


Darkest Night e o binaural

De acordo com sua descrição, Darkest Night é um audiodrama binaural que coloca você, o ouvinte, no centro de uma memória recuperada que soa como se estivesse acontecendo ao seu redor em tempo real. Cada capítulo investiga as últimas memórias do recente falecido, revelando lentamente um plano horripilante.


Para observarmos a inserção dos recursos binaurais na narrativa, recorremos à análise de conteúdo como metodologia. Optamos por observar se essa estratégia é utilizada em situações pontuais que são características do audiodrama, como na composição da ação sonora, no cenário sonoro e em pontos de virada dos três elementos da narrativa dramática (exposição, nó e desfecho.


Cenários Sonoros


Os cenários sonoros ainda são poucos usados e, para situar o ouvinte, os personagens mencionam os lugares em que eles estão. No entanto, as ações sonoras aparecem com mais frequência aqui e servem para localizar quem ouve. Neste episódio, o enredo desenvolve-se em mais ambientes do que o piloto, então as ações sonoras marcam a mudança de local, seja por meio de efeitos como passos ou portas abrindo e fechando. Todas as ações são construídas de forma binaural, assim como todo o diálogo.


Em relação à narrativa dramática, a lógica usada é exatamente igual ao episódio piloto, pois a exposição poderia ser melhor explorada. Apesar de já conhecermos os personagens iniciais, Katie e John, vamos compreendendo sobre os novos personagens através do diálogo que eles estabelecem uns com os outros. O nó e o desfecho, assim como no primeiro episódio, são marcados por passagens que usam efeitos sonoros, todos em binaural. Como vimos, essa ferramenta potencializa o caráter imersivo do áudio, fazendo com que o ouvinte sinta-se inserido na narrativa, presenciando todo o enredo de forma sensorial.


Audiodrama renasce no Podcast


O audiodrama encontra no podcast um espaço para retomar suas produções elaboradas com efeitos sonoros que acrescentam vivacidade à história e que estão longe de serem meramente decorativos. Aliado a essa narrativa acústica, está o binaural que, como propomos, pode ser usado em três perspectivas: na voz dos personagens, na ação sonora e na composição do cenário sonoro. Podcasts que utilizam o áudio binaural como estratégia para a construção de narrativas imersivas propiciam a recuperação do ambiente acústico como efetiva possibilidade de experimentação estética. A aproximação com o ouvinte e a sensorialidade, características do rádio, são potencializadas por essa ferramenta.



Luana Viana

Texto extraído do artigo publicado na Revista Acadêmica Jornalismo, Rádio e Inovação da Universidade Federal de Santa Catarina




BLG_CLV,1.7.2021 > O QUE A MÚSICA JÁ FEZ POR VOCÊ?



Desde que eu me lembro adoro música. Cresci ouvindo principalmente música popular brasileira e rock inglês, quase nunca saía disso. Sem saber muito o que música poderia fazer por mim, fiz aulas de vários instrumentos. Comecei com violino, passei por violoncelo, pulei para bateria e arranhei no violão por alguns meses. Todos os instrumentos que tentei me fizeram bem. Me lembro que entrar na escola de música era uma sensação maravilhosa!


Interessante dizer que não continuei com nenhum deles, sem motivos muitos palpáveis, acho. Sempre amei e até hoje nas minhas indagações ainda volto nesse questionamento.

Bom, nem tudo caminha da forma idealizada, ainda mais quando a idealização da sua infância chega aos 30 anos. De qualquer forma, sempre amei música e continuo me doando de alma e coração aos nossos encontros.


Hoje, entendo um pouco mais o que ela pode fazer por nós. É cientificamente comprovado que a música transforma caminhos neurais existentes e neurologicamente muda nosso comportamento. Ela é inclusive utilizada em algumas terapias para construir objetivos não musicais, como movimento, comunicação, linguagem receptiva e habilidades cognitivas. Alan Harvey, neurocientista renomado e músico (guru nos estudos de música e neurociência), diz que pesquisas mostram que quando há pelo menos um pouco de educação musical existe um impacto positivo no desenvolvimento social e cognitivo das crianças. E estes efeitos são duradouros - melhor audição, melhor habilidade motora, melhor memória, melhor habilidade verbal e de alfabetização.


Para mais, ela é capaz de reduzir estresse e ansiedade, ajudar a superar a insônia, alterar humor e motivação, além de proporcionar desvio das preocupações mentais. São inúmeros seus benefícios para nossa mente, corpo, alma e espírito. É um fenômeno como poucos.


A música constrói mundos. Isso é profundo. Não só a afirmação em si mas o espaço em que ela navega. Vemos a música servindo como pontes para inúmeros atos sociais, como trilha para povos, momentos e tempos há tempos. De acordo com Jung (1906) ela expressa em sons o que fantasias e visões expressam em imagens visuais. A música representa o movimento, o desenvolvimento e a transformação dos motivos do inconsciente coletivo.


De todos os mundos que a música já construiu, alguns deles são meus e existem algumas lições que eu aprendi nesse nosso flerte de anos. A primordial é que a música é o caminho. Nunca vi um artista ou compositor escrever por escrever ou performar por performar, sempre parece existir um outro fim, mesmo que esse fim seja um desejo próprio. Como caminho, ela abre espaço e possibilita muitas existências. Esse é o poder da criatividade, ela reside e resiste na sua própria existência.


Estudos de Harvard de 2018, esclarecem que existem significados musicais que podem transcender as fronteiras culturais e ser universalmente humano. Caminhamos do individual para o coletivo rapidamente quando compreendemos que música é uma linguagem universal. Essa foi e é minha segunda lição. Nossa reação a uma canção pode ser tão visceral ao ponto de ficarmos absolutamente entrelaçados nela. A música é muito consumidora e talvez por isso ela esteja em quase todas as relações existentes. Para Platão ( 427-347 a.C) “a música é um meio mais poderoso do que qualquer outro porque o ritmo e a harmonia têm a sua sede na alma." A real é que é maravilhoso ter a possibilidade de ser tocado por uma música e já está mais do que claro que isso não depende somente da audição.


A música é um fenômeno como poucos. Talvez isso justifique o giro intenso entre expressão e realidade. Penso que o que não podemos esquecer nesse processo é em seu valor para quem se permite senti-la, Rubem Alves diz e eu gosto de pensar como ele, "toda alma é uma música que se toca".



Ana Paula Bontorim

Psicóloga





BLG_CLV,12.4.2021 > A ECONOMIA DA ATENÇÃO ESTÁ MATANDO A CULTURA?



O conceito que cai como uma luva para definir 2021 é antigo. No livro "The Attention Merchants", o professor da Universidade de Columbia, Tim Wu, aponta o jornal New York Sun, em 1830, como o precursor da Economia da Atenção. O jornal abriu suas páginas para anunciantes em meio às notícias, provocando transformações imediatas: o preço do jornal caiu expressivamente, a linha editorial se abriu para assuntos populares e os leitores deixaram de ser clientes para se tornarem o produto.


Assim, surgiram os tabloides, ou diários populares. O formato mídia foi replicado e popularizado nos jornais, rádios, televisão pelo século XX e se tornou a tônica da internet e redes sociais no século XXI. Há 150 anos, já estava claro: o foco vale mais do que dinheiro.

Não é só uma questão de mídia, a economia da atenção tem moldado o modus operandi de uma geração, impactando o como pensar, fazer e falar sobre cultura e entretenimento. Já ouviu falar em farm content? São empresas metade cara de agência e metade cara de redação que produzem um grande volume de conteúdo clickbait. A filosofia que impera neste mercado é: a prioridade é capturar a atenção e o tempo da pessoa, o conteúdo usado para isso e o meio são secundários.

Dos 15 minutos de Andy Warhol aos 15 segundos das Redes Sociais

Em 1968, Andy Warhol disse "no futuro todos serão famosos por 15 minutos". A descentralização dos meios, a pulverização de mídias e a vida efêmera dos conteúdos, a industrialização da arte, dão sustento ao pensamento de Andy. Na verdade, são 15 segundos que você tem para convencer alguém, usando as armas que você tiver: beleza, talento, network, humor, lifestyle. Sem compreender todo o excesso e com medo de não ser parte, as pessoas dizem sim para este sistema e se jogam na disputa por mais atenção.

Economia da Atenção na Música

Fatos evidenciam o dinamismo de redes como Instagram e Tik Tok provocando mudanças no modo do artista divulgar ou até mesmo expressar suas obras. A economia da atenção já é realidade nos estúdios. Composições e produções são pensadas para performar e capturar as pessoas em segundos, a fim de convencê-las a ficar mais para ouvir o que você tem a dizer.

O canadense Hubert Léveillé Gauvin publicou um artigo, pela Universidade do Estado de Ohio, "Capturando a Atenção do Ouvinte na Música Popular: Testando 5 características musicais surgidas a partir da Teoria da Economia da Atenção". O estudo cruzou uma análise das músicas mais ouvidas dos últimos 30 anos e identificou mudanças latentes em aspectos que convergem com as técnicas de captura de atenção: Diminuição das introduções; Estrofes menores e refrões tocados logo no início; Aumento da velocidade da música; Simplificação / Literalidade nas Letras.

Aceitando Mudanças, Respeitando Você

Novas tecnologias, novos meios, novas gerações provocam mudanças e criam a necessidade de reaprender e se reinventar. Estar vivo é isso, estar em movimento, crescendo e aprendendo. O importante é a conscientização e a lucidez para acompanhar estes passos, entendendo as ferramentas e suas dinâmicas, definindo o que faz sentido para a sua história, projeto e construção de marca.

Com tantas ofertas e leilões literais pela atenção da audiência, aprender a dizer não é uma questão de sobrevivência e equilíbrio. E saber que se grandes máquinas digladiam pela sua atenção, você já entendeu o valor de cada minuto seu?



Pedro Bontorim

CLAV



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